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quarta-feira, junho 03, 2015

Cotas...já deu!!!

E o programa Encontro, da Fátima Bernardes, volta a discutir o manjado e batido tema das "cotas"...

Sério, não aguento mais esses papinhos. Esse debate sobre cota já "deu". As cotas - ou políticas de ações afirmativas - existem, quer se gostem delas ou não, e continuarão a ser implementadas (afinal, como dizia um samba da Beija-Flor, "a liberdade já raiou, mas a igualdade não") e não há mais possibilidade de retrocesso. Ponto.

Aí fala-se na questão do mérito. Mérito? É um discurso bonito e até comovente, mas... no Brasil, ninguém ascende socialmente sozinho, somente pelos próprios méritos. Se não tiver uma estrutura econômica básica, família organizada, relacionamentos, o máximo que se chega é até o meio do caminho. Quer estudar medicina mas só chega a auxiliar de enfermagem; quer ser economista mas acaba sendo técnico de contabilidade... Aqui é assim.

E o mais engraçado é que tem cota pra tanta coisa (vaga para mulheres em partido político para concorrer em eleição; vaga para deficiente em concurso público e transporte coletivo; vaga para filho de militar em escola militar), mas quando se quer promover a igualdade de oportunidade para afrodescendentes, aí as cotas passam a ser "sociais", que até podem resolver o problema do POBRE, mas não resolvem a questão do NEGRO. Impressionante como o negro no Brasil ainda é visto como um "problema".

segunda-feira, maio 18, 2009

Cotas...mais uma vez (dá-lhe, Zulu!)


Estou impressionado com o número elevado de artigos que atualmente pululam em jornais, revistas, sites e outras publicações de autoria de "gentes" se manifestando contra as cotas e outras ações afirmativas. Questionam e criticam a adoção destas ações, ora invocando uma suposta inconstitucionalidade, ora querendo substituir por "cotas sociais", que segundo afirmam, seriam "mais justas".

Pois o presidente da Fundação Cultural Palmares, Zulu Araújo, elaborou um belo texto, intitulado Cotas, mentiras e videotapes!, em resposta à inteligentzia, aos filhos bem criados da classe média e até mesmo a afrodescendentes que querem se celebrizar ao se mostrar contrários às ações compensatórias. Pena que alguns jornais/revistas não tivessem coragem de publicá-lo. Porém, o Blog du Brisa - que adora uma polêmica - reproduz, na íntegra, o texto publicado originalmente na Revista Raça Brasil nº 132.

Cotas, mentiras e videoteipes!
por Zulu Araújo, presidente da Fundação Cultural Palmares / Ministério da Cultura

Os ataques partiram de todos os lados (emissoras de televisão e rádio, jornais, blogs). Não importa que a proposta tenha sido mitigada por critérios sociais na Câmara dos Deputados e que as pesquisas apontem o sucesso onde elas foram implantadas. "Somos contra", afirmaram em uníssono os representantes da maior frente política articulada contra a promoção da igualdade no Brasil.

Enfim, as máscaras caíram. Nenhuma proposta ou alternativa é apresentada. São contra tudo que signifique promoção da igualdade neste país (bolsa-família, cesta básica, demarcação das terras indígenas... ). Desta vez fulanizada em opiniões absolutamente díspares e caricatas, ora pela boca de eminentes antropólogos, sociólogos ou jornalistas, ora por filhos bem criados da nossa classe média privilegiada e de vez em quando por afrodescendentes ávidos pelos 15 minutos de fama, repetiram a ladainha de sempre: As cotas não resolvem o problema da desigualdade racial no ensino, excluem o mérito do processo seletivo, racializam as relações na sociedade brasileira.

Em sua sanha destrutiva foram mais além. Um renomado cientista fez a seguinte afirmação na revista Época (n° 568): "A escravidão é uma coisa horrorosa que aconteceu há mais de 200 anos. Quem é que tem de pagar por isso hoje? O imigrante italiano?" Para este cidadão, quem deve continuar pagando a conta somos nós, que fomos escravizados. Quer algo mais explicito? Pela lógica deste cidadão, os palestinos também poderiam construir a seguinte frase: "A expulsão dos judeus da sua terra natal foi horrorosa, por que passados mais de 2000 anos nós é que temos de pagar a conta? Cômico, senão trágico, se a vida fosse tão simples assim.

Vale a pena lembrar aqui que foi a Organização das Nações Unidas(ONU), da qual o Brasil é membro, que estabeleceu a reparação como mecanismo compensatório à escravidão, reconhecida como crime de lesa-humanidade.

Mentiras - Vale tudo para desconstruir esta pequena possibilidade de reparação da imensa dívida que este país possui para com quase metade de sua população. Escondem-se as pesquisas, os números e a secular exclusão dos afro-brasileiros da educação, do mercado de trabalho, da mídia e de tudo que signifique poder real neste país. Mente-se de forma despudorada. Mistificam-se opiniões isoladas e omitem-se as conseqüências crueis dos anos de escravidão e discriminação racial.

Tudo isto, para que os privilégios sejam justificados em nome de uma meritocracia fajuta, pois está mais do que comprovado que o sistema seletivo atual não avalia mérito algum. Mentem quando afirmam que as cotas raciais são o problema. Querem que tudo continue do jeito que está sob a justificativa de que somos um país pacifico, com um povo ordeiro e mestiço, que nunca viveu os horrores da discriminação e do racismo. Só faltam dizer que a escravidão foi boa para os africanos, pois afinal lhes deram uma religião, bons modos e acesso a uma nova civilização. Nas inúmeras matérias, entrevistas, artigos e editoriais, os representantes dos quase dois terços da população que é favorável às cotas são solenemente ignorados. É um verdadeiro massacre midiático. Seguramente o mais longo e bem articulado dos últimos 20 anos.

Vídeoteipe - Nos últimos ataques, os porta-vozes da elite brasileira revelam bem mais que uma discordância com as ações afirmativas. Avançam para o terreno da defesa pura e simples do direito ao privilégio para uma minoria bem nascida e bem nutrida. Nenhuma política que vise alterar o status quo vigente é correta. É como se todas elas estivessem impregnadas do veneno mortal da igualdade. Sonham de olhos bem abertos com o retorno ao passado, como se a vida pudesse ter remake ou vídeoteipe. É como se houvesse uma determinação divina para que o acesso à universidade, aos melhores empregos, aos cargos de direção do país e às nossas melhores terras sejam exclusivamente dos mesmos que ao longo dos últimos quinhentos anos se locupletaram com as riquezas de nossa nação ao custo da escravização, da exclusão e da discriminação da maioria do povo brasileiro. Ainda bem que os homens e mulheres de boa vontade são a maioria deste país e cada vez mais conscientes de que o Brasil só será uma democracia de fato e de direito quando a fraternidade, justiça e igualdade for para todos. Vamos à luta !

Toca a zabumba que a terra é nossa !

Falou e disse, Zulu!