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terça-feira, junho 17, 2008

Jamelão, meu parente



Ao receber a notícia da morte do cantor Jamelão (1913-2008) eu senti como se eu tivesse perdido um parente querido. Explico: eu me criei, desde pequeno, escutando a voz tronitroante do sr. José Bispo Clementino dos Santos, através dos discos que o meu pai tinha. E o pai (ardoroso fã) gostava de cantar as mesmas músicas imitando o timbre de voz do Jamela. Além de ouvir o fino da dor-de-cotovelo (Lupicínio Rodrigues, Lúcio Cardim e Ari Barroso, entre outros), eu também curtia aquela voz que entoava os sambas da Estação Primeira de Mangueira.
Ou seja, a voz de Jamelão estava permanentemente presente em nossa casa. Era como se fosse o irmão mais velho do meu pai. Ambos torciam pelas cores verde e rosa. No futebol, o pai era flamenguista roxo, e Jamelão, vascaíno de vestir camisa. Mas este último detalhe pouco importava.

Uma das minhas grandes frustrações foi não ter conseguido conhecer pessoalmente o Jamelão. E por duas vezes, na época em que eu trabalhava na Rede Bandeirantes, eu QUASE consegui.
Na primeira, lá pelos idos de 1997, eu apresentava um programa de carnaval na Band AM, aos sábados, e o Jamelão estaria em Porto Alegre naquele dia. Rolou o boato de que o Jamelão poderia visitar os estúdios da rádio, pois um dos outros apresentadores do programa garantiu que o velho intérprete apareceria. Que nada! Fiquei quatro horas no ar e nada do Seu José Bispo aparecer.

Na outra vez, em 2000, Jamelão veio a POA inaugurar a boate Se Acaso Você Chegasse, de propriedade do filho de Lupcínio. Como todos sabem, Jamelão foi o intérprete maior das músicas de Lupi. Só que o show de inauguração aconteceria na noite de uma quinta-feira, e o programa que eu trabalhava, chamado Manhã Bandeirantes, ia ao ar das 9h30 às 11h e o cantor só chegaria na cidade durante a tarde. Putz!

Depois disso, as vindas de Jamelão a POA passaram a ser mais escassas, eu saí da rádio e não tive mais oportunidade, profissionalmente, de ter contato com o cantor. Na semana em que meu pai morreu, Jamelão estava completando 90 anos. O aniversário do cantor aconteceu no dia 12 de maio e meu pai fez a passagem quatro dias depois. E, no hospital, eu lembro de ter falado pro meu pai sobre o aniversário do Jamelão. E eu tinha visto, dias antes, o CD "Cada vez melhor", que era o mais recente lançamento. Pensei em comprar, gravar numa fitinha k-7 e entregar para o pai escutar no hospital. Infelizmente, não deu tempo...

Mas eu me lembro a primeira vez que eu vi o Jamelão. Eu tinha uns 5, 6 anos, e ele pôs o auditório Araújo Vianna inteiro pra gingar com o samba enredo da Mangueira naquele carnaval: "oba-ba, oba oba-bá/ é a Mãe do Ouro/ que vem nos salvar".

Para quem gosta, aí vai um link do disco "Jamelão interpreta Lupicínio Rodrigues", gravado em 1972, extraído do blog Cápsula da Cultura. Siga em paz, velho mestre!




* Para baixar o arquivo é só clicar no link (não se preocupe, não é vírus). Vai abrir uma página, depois, é clicar onde diz "star the download". Aí é só escolher entre abrir o arquivo (que virá zipado) ou salvar em alguma pasta do pc.


sábado, junho 23, 2007

Mangueira, estou na plataforma da estação primeira

Meu pai era fã do cantor Jamelão. Na época da "eletrola", o Seu Paris gostava de botar um LP e ficar imitando a voz do intérprete mangueirense pela casa todas faixas do disco. Eu me criei escutando o meu pai cantar as músicas de Lupicínio Rodrigues na voz do "Jamela".

Poucos dias depois que o meu pai se foi, passou um programa especial sobre o Jamelão na televisão justamente cantando aquelas músicas que eu escutava desde a infância. Pronto. A partir daquele momento, percebi que eu sou uma manteiga derretida e que fiquei muito suscetível a me emocionar facilmente. Não são lágrimas de tristeza, mas gotas de saudade.

Não escuto mais a voz de meu pai e a de Jamelão está debilitada devido a dois AVCs sofridos pelo cantor no ano passado e é bem provável que a gente não a ouça mais, já cansada, do alto de seus 94 anos.

Mas, como as músicas são eternas e para a gente ficar feliz, divido com todos dois momentos do grande Jamelão:

1) primeiro, um vídeo do cantor, recebendo Chico Buarque para uma roda de samba no morro de Mangueira. A música é "Piano na Mangueira", parceria que Chico e Tom Jobim fizeram quando o segundo foi tema do carnaval da verde e rosa, em 1992. O vídeo tem direito até a participação de um cachorro latindo e fazendo xixi.



Mangueira
Estou aqui na plataforma
Da Estação Primeira
O morro veio me chamar
De terno branco e chapéu de palha
Vou me apresentar à minha nova parceira
Já mandei subir o piano pra Mangueira

A minha música não é de levantar
Poeira
Mas pode entrar no barracão
Onde a cabrocha pendura a saia
No amanhecer da quarta-feira
Mangueira
Estação Primeira de Mangueira

2) um arquivo em mp3 do único samba enredo composto por Jamelão que foi levado para a avenida. Trata-se de "Cântico à natureza - Primavera", de 1955, que tem como autores Alfredo Português e Nelson Sargento. Notem a pureza cristalina da sua bonita voz grave. Fosse nascido nos Estados Unidos, Jamelão seria um mito, tipo Louis Armstrong ou Nat King Cole. Mas, sabe como é... estamos no Brasil!

http://www.4shared.com/file/18462723/be17960c/Jamelo_-_Cntico__Natureza.html

Brilha no céu o astro rei
Com fulguração
Abrasando a terra
Anunciando o verão
Outono
Estação singela e pura
É a pujança da natura
Dando frutos em profusão
Inverno
Chuva, geada e garoa
Molhando a terra
Preciosa e tão boa
Desponta
A primavera triunfal
São as estações do ano
Num desfile magistral

A primavera
Matizada e viçosa
Pontilhada de amores
Engalanada, majestosa
Desabrocham as flores
Nos campos, nos jardins e nos quintais
A primavera
É a estação dos vegetais

Oh! Primavera adorada
Inspiradora de amores
Oh! Primavera idolatrada
Sublime estação das flores