domingo, junho 24, 2007

Onde estão os negros da Argentina?


Na próxima terça-feira (26) inicia mais uma Copa América de Futebol. E a Seleção Brasileira, treinada por Dunga, estréia na quarta (27) contra o México, na cidade venezuelana de Puerto La Cruz.

Mas peguei o assunto do futebol só como gancho. É que uma coisa sempre vinha me deixando intrigado: nunca vi um negro atuando em qualquer seleção esportiva argentina, seja em Copa do Mundo, Jogos Pan-Americanos ou Olimpíadas. O que aconteceu com os negros do vizinho portenho?

Houve escravidão em toda América Latina. A importação de negros chegou até esta parte do Hemisfério Sul. Basta ver atletas e artistas brasileiros, uruguaios, colombianos, equatorianos, venezuelanos, peruanos, etc. E na Argentina, o que houve? Meu irmão Gilson esteve na Argentina há cerca de 10 anos. Viajou com colegas da faculdade na época em que ele cursava Geografia na Ufrgs para um encontro universitário em Buenos Aires. E ele, que tem a pele levemente mais escura do que a minha, disse que os estudantes argentinos puxavam papo com ele em francês, pensando que ele tivesse nascido no Senegal, Camarões ou Costa do Marfim (países africanos que foram colônias francesas). E ele chamava a atenção por ser negro. Era o chocolate no meio do creme de baunilha. Foi por essas curiosidades que eu resolvi dar uma pesquisadinha no assunto.

Na Argentina não tem negros porque foram todos mortos há pouco mais de um século. Jorge Lanata é um dos mais importantes jornalistas argentinos, fundador do diário “Página/12” e autor de Argentinos (em espanhol, Editora Argentina), uma belíssima história de seu país em dois volumes, lançada em 2002. Nos livros, ele batiza os negros de los primeiros desaparecidos, referência aos mortos pela ditadura militar recente. E traz números: no censo de 1778, 30% da população tinha origem africana. A proporção se mantém no censo de 1810, cai para 25% em 1838. Em 1887, repentinamente, compõe menos de 2%. Mas no início, bem no início, há depoimentos de que a proporção de negros e brancos em Buenos Aires chegou a ser de 5 para 1.

Durante seu primeiro século de vida, a capital argentina sobreviveu às custas do comércio negreiro. No século 16 até a primeira metade do 17, a coroa espanhola drenava o ouro e a prata do Potosí, na atual Bolívia. Foi este o negócio que batizou o Rio da Prata – e foram principalmente mãos negras que tiraram das minas subterrâneas os metais que sustentaram a Europa. Os escravos que trabalharam no Potosí vinham principalmente de Angola. Eram negociados pelos peruleiros, que faziam a rota Potosí-Buenos Aires-Rio-Luanda. O Rio de Janeiro também sobreviveu economicamente por conta do tráfico, numa época em que o açúcar do Nordeste era de qualidade muito maior. No Rio chegavam os escravos, pagos em boa parte não com dinheiro mas com açúcar, cachaça, mandioca e tabaco, que serviam de moeda de troca na África. Os escravos eram transportados então para Buenos Aires, onde entravam ilegalmente, e enviados Prata acima até as minas. Era um jogo onde todos, inclusive os governadores, eram contrabandistas. A relação na rota de tráfico entre Rio e Buenos Aires era tão íntima que, quando veio a separação da União Ibérica, os cariocas chegaram a sugerir aos hermanos que se bandeassem para o lado português.

Como no Brasil, todo o serviço, doméstico ou não, nos séculos 17 e 18 foi feito por mão-de-obra negra e escrava na Argentina. Então desapareceram e a história local ensinada nas escolas se cala sobre o assunto. Francisco Morrone, autor de Los negros en el ejército: declinación demográfica e disolución, é um dos historiadores que tenta recuperar o que houve. Segundo Morrone, uma das coisas que aconteceu foram casamentos mistos que, lentamente, clarearam a pele de filhos e netos. É o tipo da resposta que explica quase nada. Mas aí ele mete o dedo na ferida.

A abolição da escravatura na Argentina começou em 1813, foi confirmada pela Constituição de 1853 – bem antes à brasileira. Durante o século 19 todo, o país se meteu numa guerra após a outra. Contra invasões por parte de Inglaterra e França, então a Guerra da Independência seguida do banho de sangue da luta interna entre caudilhos pelo poder e culminando com a Guerra do Paraguai, na qual seguimos aliados. Por todo este período belicista, a Argentina pôs seus negros na linha de frente dos exércitos, os primeiros a levar tiros, às vezes de espingardas – muitas vezes servindo de isca para que o inimigo gastasse as balas de canhão.O golpe final foi a grande epidemia de Febre Amarela em 1871, que se abateu sobre os bairros de Buenos Aires para onde os negros que sobraram foram transferidos. Depois, nos primeiros anos do século 20, assim como no Brasil, houve uma enorme migração européia, principalmente de italianos, que marcaram o sotaque portenho como marcaram cá o paulistano. A diferença é que, a essas alturas, os poucos mulatos não tiveram melanina suficiente para escurecer a pele da população restante.

A Argentina teve, sim, escravos, exatamente como o Brasil e na mesma proporção. Nos momentos seguintes à sua independência, aboliu a escravidão para pôr em marcha uma política de branqueamento da população. No caso, isso quer dizer genocídio. Diga-se de passagem, nos primeiros anos da República isto foi motivo de inveja por parte do governo brasileiro. Não há inocentes.

31 comentários:

Ferdibrand disse...

Interessantíssima questão, Gerson. A História correu como se a Argentina tivesse sido, entre as colônias americanas, uma colônia à parte - e os dominadores continuam sedimentando essa história, cada vez mais, sempre por meio do esquecimento. Nenhuma proporção cairia de 25% para 2% em 50 anos apenas devido aos casamentos mistos.

memo disse...

hi buddy:
currently, argentina has 1.500.000 black people; they are descendants from former slaves brought from africa.
however, its population decreased dramaticaly due to the paraguay war and the goverment policies.
you can find more info here: (please translate with google lenguage tool)

www.pagina12.com.ar/2001/suple/No/01-07/01-07-05/NOTA1.HTM

www.cwo.com/~lucumi/argentina.html

news.bbc.co.uk/hi/spanish/misc/newsid_2285000/2285932.stm

after readind these articles you can get your own conlusions.

see you buddy

memoemc2

Anreak disse...

Negros e índios também foram usados nas linhas de frente aqui no Brasil. Agora não se sabe como os daqui sobreviveram e os de lá não.

andre disse...

texto nota 10

Anônimo disse...

Ótimo texto!
Eu só sabia, por conversa de botequim, com meus amigos historiadores, que a quase totalidade dos negros haviam morrido à frente nas guerras batalhas das guerras, em que o Governo se meteu.
Mas essa concepção das classes dominantes calou fundo na alma do povo argentino, que até hoje, em sua maioria, faz questão de reafirmar a sua descendência européia (inglesa, na maioria das vezes, embora na realidade seja italiana) e, chama a nosotros de macaquitos.
Por esse motivo, preciso de muitos filmes do Solanas, para alimentar a minha solidariedade ao povo irmão.

EL MULATO disse...

Bastante esclarecedor o texto, sempre me intrigava pq nossos hermanos n tinha representação afrodescendente no meio esportivo e sobretudo no q diz respeito ao seu povo em geral.

Rauldenis disse...

É imprecionante a capacidade do ser humano em causar dor ao seu próximo.
Esse é um assunto bem polêmico e as pessoas sempre se esquivam em "discutir sinceramente".
É uma pena que para sentir-se humanos os Argentinos (passiva ou ativamente)tenham que exterminar suas verdadeira raízes.

Anônimo disse...

A seleção de futebol nunca teve um jogador negro, mas já teve um jogador mulato e que disputou a Olimpíada de Atenas 2004): Clemente Rodríguez, jogador do Estudiantes.

E a população negra na Argentina continua muito pequena, o mesmo ocorre no Chile, ao contrário dos demais países sa América do Sul.

Fábio Sampaio, Salvador/BA

heberton disse...

muito boa essa sua matéria, algo que estava faltando a ser comentado pelos blogueiros.
visitem meu blogger
http://gerandodiscursao.blogspot.com

AQUARIANO disse...

Parabéns Gerson pelos serviços prestados.
Essas histórias e pré-histórias precisam ser divulgadas.
A comunidade de interesse deve ter elementos para argumentar e, é esse tipo de informação que mina uma discussão saudável, ou seja, sem o conhecimento de origem e destinos das comunidades negras no mundo, não é possível discutir.
Obrigado.

odair disse...

gente q interessante
eu estava mesmo precisando disso. afinal travei um duelo em comunidades do orkut
com a pergunta n/ão vejo negro na seleção argentina seria ela o pais mais racista do mundo?
muito boa essa materia parabens

odair disse...

gente q interessante
eu estava mesmo precisando disso. afinal travei um duelo em comunidades do orkut
com a pergunta n/ão vejo negro na seleção argentina seria ela o pais mais racista do mundo?
muito boa essa materia parabens

Mapa disse...

caracas leke
estava curioso pra saber se na argentina nao existia negros mas esse texto ai esclareceu todas as minhas duvidas e criticas que eu tinha com a argentina.Parabens pela pesquisa .Texto nota 10 mesmo
esclareceu minha mente...

Rita Araújo disse...

Achei o texto muito interessante e esclarecedor.Estou fazendo uma pesquisa sobre o tema,e as informações aqui presentes batem exatamente com o que até o momento eu achei.Se alguém se interessar um pouco mais , podem ler o livro "Fiebre Negra" de Miguel Rosenzvit !
Nota 10 *-*

Gerson Brisolara disse...

Agradeço a todos os comentários até aqui postados. Sempre achei esta questão interessante e pertinente. Os argentinos são racistas? Não tenho uma resposta definitiva, mas, ao menos, aos poucos negros que por lá "hay" não lhes é dada uma boa visibilidade nem a chance de representar o país seja através do esporte, cultura, política, moda, mídia, e por aí vai.

Anônimo disse...

A Argentina foi o principal refúgio dos nazistas após a 2a. Guerra mundial. Lá Joseff Mengele encontrou refúgio para continuar suas experiências médicas de "purificação" das raças. A Argentina é um país muito racista, que discrimina negros e judeus, entre outros grupos. Existe até uma teoria de que Hitler não morreu na Alemanha e sim se refugiou na Argentina, pois foi imensa a quantidade de nazista de buscou refúgio naquele país.

Anônimo disse...

... não só o Dr. Josef Mengele, mas Adolf Eichmann (responsável pelo Holocausto - A Solução Final) e Martin Bormann (secretário de Hitler) - oficiais de alta patente da SS nazista - se refugiaram na Argentina.

Anônimo disse...

ola meus amigos brasileiros sou argentino da cidade de san salvador de jujuy cidade conhecida pelas piramides do imperio inca moro no brasil ha 3 anos sou filho de índios aymara tribo descendente dos incas vi alguem comentar q clemente rodriguez é mulato enganado senhor clemente é índio descendente de mapuche maior etinia da argentina com 4 milhoes de índios puros e decendentes diretos outra coisa q aqui sempre se fala é q o argentino é racista q diz isso com certeza n conhece meu país tirando buenos aires a argentina é toda indigena principalmente o norte e o maior orgulho do argentino é pertencer ao imperio inca eu acho antes de falarem besteiras teriam q procurar se informar as vezes acho q che guevara conterraneo meu foi o maior pau no cu da historia em querer america latina unida pq com pensamentos de muitas pessoas a america latina nunca sera unida

Anônimo disse...

ola meus amigos brasileiros sou argentino da cidade de san salvador de jujuy cidade conhecida pelas piramides do imperio inca moro no brasil ha 3 anos sou filho de índios aymara tribo descendente dos incas vi alguem comentar q clemente rodriguez é mulato enganado senhor clemente é índio descendente de mapuche maior etinia da argentina com 4 milhoes de índios puros e decendentes diretos outra coisa q aqui sempre se fala é q o argentino é racista q diz isso com certeza n conhece meu país tirando buenos aires a argentina é toda indigena principalmente o norte e o maior orgulho do argentino é pertencer ao imperio inca eu acho antes de falarem besteiras teriam q procurar se informar as vezes acho q che guevara conterraneo meu foi o maior pau no cu da historia em querer america latina unida pq com pensamentos de muitas pessoas a america latina nunca sera unida

Mara Rivas disse...

Não imaginava tal barbárie!!! Um verdadeiro genocídio... Hitler e o governo Argentino tem muito em comum, eo Brasil!! Que vergonha...

Adorei a pesquisa! Bjs.

Fernanda Cecília disse...

Ótimo texto! Bem, estudei um pouco sobre eugenia na América Latina, e afirmo que as práticas eugênicas (purificação da raça) tenha uma grande relação com a questão abordada, aliás, a Argentina foi muito influenciada pelas ideias de pureza do fascismo italiano. Pra se ter uma ideia, a Argentina controlava a natalidade através da seleção matriarcal. Em um passado não muito distante os indivíduos argentinos possuíam uma espécie de ficha biotipológica, era muito importante manter o controlo do "futuro germe-plasma da nação". E, acredito que o passo mais importante para consolidação da raça branca na Argentina foram as fortes restrições de imigrações, pois não era permitido entrada de Judeus, negros, pessoas com qualquer tipo de deficiência, seja física ou mental. Com certeza a existe muitas medidas desta natureza na atualidade, só que de forma mascarada.

Gustavo disse...

Se houve esse genocídio, foi realmente um ato imoral e vexaminoso.

Mas pensando nas conseqüências, trazer negros p/ o Brasil só enriqueceu alguns poucos traficantes, impediu o desenvolvimento da mão-de-obra local por um bom tempo até a abolição, fato este que jogou os negros à própria sorte. Eles sofrem até hoje com a maldita desigualdade social, cuja raiz começou com sua chegada ao Brasil.

Assim, por mais repugnante que tenham sido as práticas do governo portenho, a homogeneidade social/racial lhe fez melhor do que a miscigenação brasileira. Não à toa, Chile e Uruguai também possuem pouca mistura racial e indicadores sociais melhores.

Anônimo disse...

Um pais covarde diz a história ponharão os negros para lutar em troca da liberdade se sobrevivesse.

Anônimo disse...

quando voce pensa que ja viu tudo de maldade do ser humano,voce se espanta,e percebe que o egoismo e infinito em todo lugar

Fabio Torquato disse...

Bom, já não gostava de argentinos agora mesmo é que os odeio pois odeio racistas. argentina = refúgio de nazistas.

Anônimo disse...

Os negros chilenos também foram para frente de batalha. Quem sobrevivesse era liberto. É a maneira humana de encarar as coisas. O Brasil não está longe não. Veja a Bahia. A maioria é negros. E como vivem os negros baianos?

Anônimo disse...

Na Argentina não há negros (afro), e sim morenos.

renaldo pina disse...

Que vergonha toda a América latina tem negros menos a Argentina ...

renaldo pina disse...

Por esta não espera, eu nasci num país que vendeu muito escravo por essa América foram mas como a queestão foi levantada porcausa do futebol eu na realidade sempre me questionei sobre este assunto , perguntava sempre aos meus amigo então na Argentina não existe negros que joguem futebol e que queiram representar o seu país. Penso que os antepassados dos argentinos e os próprios argentinos de agora tem muito sangue na mão eu sinceramente não vou ficar com rancor deles porque eu sou negro mas uma coisa é certa a minha opinião sobre eles mudou drasticamente...

Anônimo disse...

Hoje no domingão do faustão, uma negra argentina foi entrevistada na fan fest em copacabana.

Anônimo disse...

o extermínio dos negros argentinos foi premeditado e deve ter sido fácil pq a população negra portenha era relativamente pequena, se comparada a brasileira.