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segunda-feira, maio 16, 2022

E fez-se a luz e o Carnaval!

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Postado em A Entrudeira


   E finalmente fez-se a luz e o carnaval! Depois de um período pré-carnavalesco de 800 dias (!!!), o porto-alegrense pôde se reencontrar com a folia. Incrível imaginar que a última escola de samba que havia desfilado no Complexo Cultural do Porto Seco fora a Bambas da Orgia, na já longínqua manhã de 8 de março de 2020 (Dia Internacional da Mulher). Portanto, em um intervalo interminável de 800 dias!

   Logo após o final do carnaval de 2020 o planeta conheceu uma doença infecciosa surgida na China com graves consequências no contexto universal. No dia 11 de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou pandemia do novo coronavírus. A doença ganhou o nome de Covid-19 e o resto todos sabem o que aconteceu.

   O cenário carnavalesco virou do avesso: desfiles fora de época cancelados em várias cidades, quadras de ensaios fechadas, eventos suspensos, trabalhadores (principalmente os da área artística e de eventos) sem trabalho. O ano de 2021 passou em branco em termos de desfiles e 2022 iniciou sem a garantia da realização da festa devido ao aumento de casos e internações por Covid-19.

  Diante desse cenário, a decisão foi adiar os desfiles carnavalescos para o feriado de Tiradentes, no mês de abril (São Paulo e Rio de Janeiro) e dias 6, 7 e 8 de maio (Porto Alegre).

   E podemos dizer que Porto Alegre foi privilegiada nesse sentido. Dos 496 municípios que formam o estado do Rio Grande do Sul, apenas quatro cidades realizaram desfiles de escolas de samba: Santa Cruz do Sul, São Leopoldo, Cruz Alta e a capital gaúcha, que está comemorando 250 anos de fundação. E olha que polos importantes do interior suspenderam a folia, como Uruguaiana, Pelotas, Guaíba, Canoas, Tapes, Santa Maria, Santana do Livramento, Arroio do Sal, Jaguarão, Rio Grande, etc. Mas cá entre nós: não foi só por causa da Covid.

   Enfim, a expectativa era grande para os desfiles de Porto Alegre em 2022! Às duas ligas gestoras do carnaval, UESPA e UECGAPA, somaram forças a duas empresas para a promoção da festa: a produtora Cubo Filmes (detentora dos direitos de transmissão em vídeo dos desfiles) e a 3M Eventos e Produções (responsável pela montagem da infraestrutura do sambódromo).

   Foi o carnaval da retomada, cheio de resistência e de luta. Três noites de empenho com as escolas levando para o Sambódromo garra e determinação entregando um belo espetáculo para a comunidade carnavalesca.

   A Imperadores do Samba se sagrou campeã do Carnaval 2022, com o enredo “Imperadores do Samba Orgulhosamente Apresenta um Espetáculo entre os Palcos da Cidade”. Entre os destaques da vermelha e branca estavam carros alegóricos representando grandes palcos da capital gaúcha, como o Theatro São Pedro, o Anfiteatro Pôr-do-Sol e a Casa de Cultura Mario Quintana.

   Com 159,9 pontos, a Imperadores conquistou o 21º título, seguida pelos Bambas da Orgia, em segundo lugar, com 159,6, e a Imperatriz Dona Leopoldina, em terceiro,com 158,4. A Império da Zona Norte, com 157,6 pontos, ficou em nono lugar e, conforme o regulamento do carnaval, foi rebaixada e vai desfilar na Série Prata em 2023.

   A campeã do Grupo Prata foi a Realeza. Conhecida como a “Mimosa” do bairro Partenon, a escola abordou o tema “Eles Combinaram de Nos Matar, Nós Combinamos de Não Morrer”, sobre a resistência do povo preto, especialmente no Rio Grande do Sul, mencionando a participação dos Lanceiros Negros na Revolução Farroupilha e também evocou a religiosidade do negro gaúcho. O segundo lugar ficou com a Unidos Vila Isabel. As duas primeiras sobem para o Grupo Ouro em 2023, que contará com dez escolas de samba.

   No Grupo Bronze, a vencedora foi a Filhos de Maria, que levou para o desfile a história de sucesso da Orquestra Villa-Lobos, escola musical sediada na Lomba do Pinheiro, na zona leste de Porto Alegre, mesmo bairro da entidade campeã. Protegidos da Princesa Isabel ficou em segundo, Mocidade Independente da Lomba Pinheiro em terceiro e Acadêmicos da Orgia em quarto lugar. As quatro ascendem ao Grupo Prata ano que vem, que terá dez agremiações.

   Conforme o regulamento do Carnaval 2022 de Porto Alegre, a Série Bronze será extinta em 2023 e as duas últimas escolas posicionadas nesta categoria (Unidos do Guajuviras, de Canoas, e Academia de Samba Cohab-Santa Rita, de Guaíba) só voltarão a desfilar competitivamente na capital a partir de 2025.

   Enfim, os repiques e os tamborins voltaram a soar, os cavacos voltaram a chorar, assim como os giros das alas de baianas e o bailar dos mestres-salas e porta-bandeiras. Que em 2023 voltemos ao calendário normal de desfiles. Parafraseando o enredo da Unidos da Viradouro, "Não há tristeza que possa suportar tanta alegria".


Fabiana Almeida e Robson Jardim, 1º Casal Mestre-Sala e Porta-Bandeira de Bambas da Orgia - Carnaval Enfoco/Japa Fotografia


CARNAVAL 2022 – CLASSIFICAÇÃO FINAL


Série Ouro


1. Imperadores do Samba 159,9 pts

2. Bambas da Orgia 159,6 pts

3. Imperatriz Dona Leopoldina 158,4 pts

4. Estado Maior da Restinga 158,3 pts

5. Fidalgos e Aristocratas 157,9 pts

6. Império do Sol 157,8 pts

7. Acadêmicos de Gravataí 157,7 pts

8. União da Vila do IAPI 157,7 pts

9. Império da Zona Norte 157,6 pts (REBAIXADA PARA A SÉRIE PRATA)


Série Prata


1. Realeza 158,9 pts (SOBE PARA O OURO)

2. Vila Isabel 158,8 pts (SOBE PARA O OURO)

3. União da Tinga 157.9 pts

4. Praiana 157.9 pts

5. Copacabana 157,8 pts

6. Unidos de Vila Mapa 156, 9 pts

7. Samba Puro 156,7 pts


Série Bronze


1. Filhos de Maria 159,1 pts (SOBE PARA O PRATA)

2. Protegidos da Princesa Isabel 158,1 pts (SOBE PARA O PRATA)

3. Mocidade da Lomba do Pinheiro 156,9 pts (SOBE PARA O PRATA)

4. Acadêmicos da Orgia 156,6 pts (SOBE PARA O PRATA)

5. Unidos do Guajuviras 156,3 pts (a escola se licencia compulsoriamente do carnaval de Porto Alegre por 2 anos)

6. Academia de Samba Cohab-Santa Rita 137,1 pts (a escola se licencia compulsoriamente do carnaval de Porto Alegre por 2 anos)

sexta-feira, abril 08, 2022

Onde estão os negros na Argentina?

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postado no Correio Brasiliense em 06/03/2021 06:00

 Por GERSON BRISOLARA — Jornalista com atuação em comunicação social e organizacional, educação corporativa e assessoria na imprensa gaúcha


Afroargentinos tocando candombe en una fogata de San Juan – 1938.

Um assunto sempre me deixou intrigado ao acompanhar as competições esportivas nos meios de comunicação: o fato de eu nunca ter visto um negro atuando em qualquer seleção esportiva argentina, seja em copa do mundo seja em jogos pan-americanos ou olímpicos. Houve escravidão em toda a América Latina. Basta ver atletas e artistas brasileiros, uruguaios, colombianos, equatorianos, venezuelanos, peruanos etc. O que, afinal, aconteceu com os negros da Argentina?

Jorge Lanata é um importante jornalista argentino, fundador do diário Página/12 e autor de Argentinos (Ed. Argentina), belíssima história do país em dois volumes, lançada em 2002. Na obra, ele refere-se aos negros como “los primeiros desaparecidos”, referência aos mortos pela ditadura militar dos idos de 1970 e 1980. E traz dados mais antigos: no censo de 1778, 30% da população tinha origem africana. A proporção se mantém no censo de 1810, cai para 25% em 1838. Em 1887, repentinamente, compõe menos de 2%. Mas bem no início, há depoimentos de que a proporção de negros e brancos em Buenos Aires chegou a ser de 5 para 1. Segundo recente estudo genético autossômico de 2012, a composição da Argentina tem ascendência europeia (65%), indígena (31%) e africana (4%).

Durante seu primeiro século, a capital argentina sobreviveu à custa do comércio negreiro. Do século 16 até a primeira metade do 17, a coroa espanhola drenava o ouro e a prata na região do Potosí, na atual Bolívia. Foi esse negócio que deu nome ao rio da Prata — foram principalmente as mãos negras que tiraram das minas subterrâneas os metais que sustentaram a Europa. Os negros escravizados de Potosí vinham, principalmente, de Angola. Eram negociados pelos peruleiros (comerciantes do Brasil que tratavam com os espanhóis do Peru, no século 18), que faziam a rota Potosí-Buenos Aires-Rio-Luanda.

O Rio de Janeiro, de modo semelhante, era dependente do tráfico. No Cais do Valongo chegavam os escravizados, pagos, em geral, não com dinheiro, mas com açúcar, cachaça, mandioca e tabaco, que serviam de moeda de troca na África. Muitos eram então transportados para Buenos Aires. E enviados rio Prata acima até as minas. A relação na rota de tráfico entre Rio e Buenos Aires era tão próxima que, quando veio a separação da União Ibérica, os cariocas chegaram a sugerir aos “hermanos” que se bandeassem para o lado português.

Como no Brasil, todo o serviço, doméstico ou não, nos séculos 17 e 18 na Argentina era feito por mão de obra negra escravizada. Então desapareceram, e a história local ensinada nas escolas se cala sobre o tema. Francisco Morrone, autor de Los negros en el ejército: declinación demográfica e disolución, é um dos historiadores que tenta recuperar o que houve. Segundo Morrone, uma das explicações é a prática de casamentos mistos que, lentamente, clarearam a pele dos descendentes.

A abolição da escravatura na Argentina começou em 1813, sendo confirmada pela Constituição de 1853 — bem antes da brasileira. Ao longo do século 19 todo, o país se meteu em guerras, uma após a outra. Por todo esse período belicista, a Argentina pôs seus negros na linha de frente dos exércitos, eram os primeiros a levar tiros, às vezes de espingardas — muitas vezes servindo de isca para o inimigo.

O golpe final foi a grande epidemia de febre amarela de 1871, que se abateu sobre bairros afastados e de extrema pobreza de Buenos Aires (guetos), para onde os negros que sobraram foram transferidos.
Depois, no começo do século 20, assim como no Brasil, houve uma enorme imigração europeia, principalmente de italianos, que marcaram o sotaque portenho como marcaram cá o paulistano. Devido a essa imigração em massa, há um ditado que diz que “os argentinos são italianos que falam espanhol e que pensam que são ingleses”. A diferença é que, a essa altura, faltou melanina para escurecer a pele da população restante.

De acordo com alguns historiadores, o efeito mais duradouro da influência africana na Argentina aconteceu na cultura artística musical, o tango, que fazia parte das cerimônias religiosas dos cativos conhecidas como tangós. Eram mestiços os primeiros compositores de tangos.

A Argentina teve, sim, presença negra, assim como o Brasil e, em certo momento, na mesma proporção. Logo após a independência, aboliu o regime escravista e pôr em marcha uma política de branqueamento da população. Algo equivalente a genocídio. Diga-se de passagem, na República Velha, isto foi motivo de inveja por parte do governo brasileiro. Nessa história, não há inocentes.

sábado, junho 26, 2010

Vuvuzela, grito negro de liberdade


O Dr. Antônio Carlos Côrtes, um dos mais competentes e talentosos advogados criminalistas brasileiros e uma das minhas referências como comunicador em transmissões carnavalescas, além de amigo e confrade, escreveu um comovente artigo no jornal Zero Hora, publicado no dia 23.06.2010 sobre as controversas vuvuzelas, sopradas pelos torcedores sul-africanos que assistem os jogos da Copa do Mundo.

Em vez de ver as cornetas compridas como um incômodo, Côrtes observa que o instrumento, antes de mais nada, pode ser definido como um símbolo de resistência do povo sul-africano. Confira, na íntegra, a reprodução do texto publicado:

"VUVUZELA, GRITO NEGRO DE LIBERDADE, por Antonio Carlos Côrtes

Eu sou o mestre do meu destino.
Eu sou o comandante da minha alma.

Nelson Mandela

As polêmicas vuvuzelas, cornetas sul-africanas, causam diversas manifestações. Muito se tem escrito a respeito. Mas a maioria se posiciona de forma contrária, e pronto. Raros partem a aprofundar o respeito à cultura de um povo.

Um pouco de pesquisa e conhecimento não faz mal a ninguém. Mas o que é a vuvuzela? Isizulu é uma das 11 línguas faladas na África do Sul. Nela, encontramos a tradução de “vuvuzela”, que tem na raiz “vuvu” o significado de soprar, enquanto o sufixo “zela” é o objeto comprido, longo.

Os reclamos partiram das grandes redes de televisão europeias. Como sempre por aqui, apenas começaram a repercutir e ampliar o assunto. Aliás, nosso país sempre importou cultura europeia, desdenhando o que vinha naturalmente do nosso povo, como por exemplo o Carnaval. Júlio de Castilhos chegou a acabar com as cavalhadas porque estas vinham do povo. O que é popular não é cultura, defendem os que têm visão à altura da soleira da porta.

Voltando às vuvuzelas, o Comitê Organizador da Copa do Mundo, frente aos reclamos das emissoras de televisão e rádio, reuniu-se, estudou o assunto e bem decidiu pela manutenção: “Elas têm origem nas cornetas que nossos ancestrais usavam para convocar reuniões”. Logo, é preciso respeito à cultura de um povo, cujo líder, Nelson Mandela, passou 20 anos preso para garantir a liberdade do seu povo, por exemplo. Gente que foi assassinada, estuprada, trucidada, escravizada e espoliada.

O berço da humanidade, está comprovado, tem origem no continente africano, onde sua gente, apesar de tudo, é alegre, dançante e parece perdoar seus algozes em uma atitude de grandeza e amor ao próximo.

Um repórter brasileiro, ouvindo uma moça negra em Joanesburgo, perguntou o que significava para ela a realização da Copa do Mundo de Futebol em seu país. A resposta veio rápida, mas profunda em emoção que resume tudo:

– Me sinto em liberdade!

Ora, bem sabemos que o apartheid, tanto quanto a abolição da escravatura entre nós, acabou de direito, mas não de fato. A verdadeira liberdade ainda precisa ser palmilhada com extremo cuidado. Vejam aqui o Estatuto da Igualdade Racial, aprovado, mas... sem as cotas.

Tentar calar as vuvuzelas é atentar contra a cultura de um povo. É amordaçar o grito negro de liberdade."