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segunda-feira, maio 16, 2022

E fez-se a luz e o Carnaval!

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Postado em A Entrudeira


   E finalmente fez-se a luz e o carnaval! Depois de um período pré-carnavalesco de 800 dias (!!!), o porto-alegrense pôde se reencontrar com a folia. Incrível imaginar que a última escola de samba que havia desfilado no Complexo Cultural do Porto Seco fora a Bambas da Orgia, na já longínqua manhã de 8 de março de 2020 (Dia Internacional da Mulher). Portanto, em um intervalo interminável de 800 dias!

   Logo após o final do carnaval de 2020 o planeta conheceu uma doença infecciosa surgida na China com graves consequências no contexto universal. No dia 11 de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou pandemia do novo coronavírus. A doença ganhou o nome de Covid-19 e o resto todos sabem o que aconteceu.

   O cenário carnavalesco virou do avesso: desfiles fora de época cancelados em várias cidades, quadras de ensaios fechadas, eventos suspensos, trabalhadores (principalmente os da área artística e de eventos) sem trabalho. O ano de 2021 passou em branco em termos de desfiles e 2022 iniciou sem a garantia da realização da festa devido ao aumento de casos e internações por Covid-19.

  Diante desse cenário, a decisão foi adiar os desfiles carnavalescos para o feriado de Tiradentes, no mês de abril (São Paulo e Rio de Janeiro) e dias 6, 7 e 8 de maio (Porto Alegre).

   E podemos dizer que Porto Alegre foi privilegiada nesse sentido. Dos 496 municípios que formam o estado do Rio Grande do Sul, apenas quatro cidades realizaram desfiles de escolas de samba: Santa Cruz do Sul, São Leopoldo, Cruz Alta e a capital gaúcha, que está comemorando 250 anos de fundação. E olha que polos importantes do interior suspenderam a folia, como Uruguaiana, Pelotas, Guaíba, Canoas, Tapes, Santa Maria, Santana do Livramento, Arroio do Sal, Jaguarão, Rio Grande, etc. Mas cá entre nós: não foi só por causa da Covid.

   Enfim, a expectativa era grande para os desfiles de Porto Alegre em 2022! Às duas ligas gestoras do carnaval, UESPA e UECGAPA, somaram forças a duas empresas para a promoção da festa: a produtora Cubo Filmes (detentora dos direitos de transmissão em vídeo dos desfiles) e a 3M Eventos e Produções (responsável pela montagem da infraestrutura do sambódromo).

   Foi o carnaval da retomada, cheio de resistência e de luta. Três noites de empenho com as escolas levando para o Sambódromo garra e determinação entregando um belo espetáculo para a comunidade carnavalesca.

   A Imperadores do Samba se sagrou campeã do Carnaval 2022, com o enredo “Imperadores do Samba Orgulhosamente Apresenta um Espetáculo entre os Palcos da Cidade”. Entre os destaques da vermelha e branca estavam carros alegóricos representando grandes palcos da capital gaúcha, como o Theatro São Pedro, o Anfiteatro Pôr-do-Sol e a Casa de Cultura Mario Quintana.

   Com 159,9 pontos, a Imperadores conquistou o 21º título, seguida pelos Bambas da Orgia, em segundo lugar, com 159,6, e a Imperatriz Dona Leopoldina, em terceiro,com 158,4. A Império da Zona Norte, com 157,6 pontos, ficou em nono lugar e, conforme o regulamento do carnaval, foi rebaixada e vai desfilar na Série Prata em 2023.

   A campeã do Grupo Prata foi a Realeza. Conhecida como a “Mimosa” do bairro Partenon, a escola abordou o tema “Eles Combinaram de Nos Matar, Nós Combinamos de Não Morrer”, sobre a resistência do povo preto, especialmente no Rio Grande do Sul, mencionando a participação dos Lanceiros Negros na Revolução Farroupilha e também evocou a religiosidade do negro gaúcho. O segundo lugar ficou com a Unidos Vila Isabel. As duas primeiras sobem para o Grupo Ouro em 2023, que contará com dez escolas de samba.

   No Grupo Bronze, a vencedora foi a Filhos de Maria, que levou para o desfile a história de sucesso da Orquestra Villa-Lobos, escola musical sediada na Lomba do Pinheiro, na zona leste de Porto Alegre, mesmo bairro da entidade campeã. Protegidos da Princesa Isabel ficou em segundo, Mocidade Independente da Lomba Pinheiro em terceiro e Acadêmicos da Orgia em quarto lugar. As quatro ascendem ao Grupo Prata ano que vem, que terá dez agremiações.

   Conforme o regulamento do Carnaval 2022 de Porto Alegre, a Série Bronze será extinta em 2023 e as duas últimas escolas posicionadas nesta categoria (Unidos do Guajuviras, de Canoas, e Academia de Samba Cohab-Santa Rita, de Guaíba) só voltarão a desfilar competitivamente na capital a partir de 2025.

   Enfim, os repiques e os tamborins voltaram a soar, os cavacos voltaram a chorar, assim como os giros das alas de baianas e o bailar dos mestres-salas e porta-bandeiras. Que em 2023 voltemos ao calendário normal de desfiles. Parafraseando o enredo da Unidos da Viradouro, "Não há tristeza que possa suportar tanta alegria".


Fabiana Almeida e Robson Jardim, 1º Casal Mestre-Sala e Porta-Bandeira de Bambas da Orgia - Carnaval Enfoco/Japa Fotografia


CARNAVAL 2022 – CLASSIFICAÇÃO FINAL


Série Ouro


1. Imperadores do Samba 159,9 pts

2. Bambas da Orgia 159,6 pts

3. Imperatriz Dona Leopoldina 158,4 pts

4. Estado Maior da Restinga 158,3 pts

5. Fidalgos e Aristocratas 157,9 pts

6. Império do Sol 157,8 pts

7. Acadêmicos de Gravataí 157,7 pts

8. União da Vila do IAPI 157,7 pts

9. Império da Zona Norte 157,6 pts (REBAIXADA PARA A SÉRIE PRATA)


Série Prata


1. Realeza 158,9 pts (SOBE PARA O OURO)

2. Vila Isabel 158,8 pts (SOBE PARA O OURO)

3. União da Tinga 157.9 pts

4. Praiana 157.9 pts

5. Copacabana 157,8 pts

6. Unidos de Vila Mapa 156, 9 pts

7. Samba Puro 156,7 pts


Série Bronze


1. Filhos de Maria 159,1 pts (SOBE PARA O PRATA)

2. Protegidos da Princesa Isabel 158,1 pts (SOBE PARA O PRATA)

3. Mocidade da Lomba do Pinheiro 156,9 pts (SOBE PARA O PRATA)

4. Acadêmicos da Orgia 156,6 pts (SOBE PARA O PRATA)

5. Unidos do Guajuviras 156,3 pts (a escola se licencia compulsoriamente do carnaval de Porto Alegre por 2 anos)

6. Academia de Samba Cohab-Santa Rita 137,1 pts (a escola se licencia compulsoriamente do carnaval de Porto Alegre por 2 anos)

sexta-feira, fevereiro 28, 2014

DICAS PARA QUEM DETESTA CARNAVAL



Êba, é carnaval! Mas para mostrar que sou tolerante com os que detestam os dias de folia, consultei sites, jornais, rede de amigos e me inspirei em um texto de Luiz Antônio Simas e preparei uma lista de programas de índi...(ops!) dicas para quem quer “fugir do agito” (copiei a expressão de um conhecido jornal alegre-portense). Vejam como pode também ser divertido ficar alheio ao evento. Eis aí a lista com “ótemas” opções para quem não é chegado no ziriguidum:

1- Rebanhão. Ah, uns com fé demais e outros com fé de menos... Neguim passa o ano inteiro maldizendo, malfalando, praguejando, xingando a esposa, traindo o marido e batendo nos filhos e aproveita justamente o carnaval para expiar os pecados no retiro espiritual. Mas já que é assim, que se aproveite o tríduo momesco para orar, entoar cânticos de louvor e ouvir a Palavra. E na quarta-feira de Cinzas, volta tudo como era antes no quartel de Abrantes: maldizer, praguejar, xingar a esposa, trair o marido, bater nas crianças...

2- Maratona em mostra cinematográfica. O nome dessas mostras geralmente é muito criativo: Fugindo do Carnaval (genial!). Enquanto eu estiver me preparando para assistir meus Imperadores do Samba e entoar o bonito samba dos Acadêmicos de Gravataí, o sujeito pode assistir a filmes dos mais conhecidos diretores da vanguarda cinematográfica sul-coreana, responsáveis por obras altamente experimentais, privilegiando o ritmo pausado, o forte conteúdo visual muitas vezes sangrento, o parcimonioso uso do diálogo e a ênfase em elementos criminais ou marginais da sociedade.

3 – Se você for amante das artes, vale a pena conferir a exposição A Bela Morte – Confrontos com a Natureza-Morta no Século XXI, no Margs. A ideia é mostrar um olhar atualizado sobre a natureza-morta, a arte de representar frutas e outros objetos inanimados. Tão emocionante quanto o grito de guerra do puxador Alexandre Belo.

4- Quer paz, sossego, e ficar longe de gente suada se esfregando no salão? Seus problemas acabaram, amigão/amigona! Passe o tríduo momesco na Cidade dos Pés Juntos, o famoso cemitério! E curta o melhor da arte cemiterial da nossa cidade. Você pode visitar o túmulo do Teixeirinha no Cemitério da Santa Casa. Indico também ir ao São Miguel e Almas, visitar o mausoléu da família Mathias Velho, onde anjos abrem o túmulo de Cristo diante de um romano espantado. O monumento é um dos melhores exemplos de arte funerária de Porto Alegre. O Jardim da Paz, na Lomba do Pinheiro, é considerado o mais belo “cemitério-parque” do Brasil, tem clima bucólico e não se escuta qualquer baticum.

5- Maratona do descarrego nas unidades da Igreja Universal do Reino de Deus. Durante quatro dias pastores realizarão exorcismos e descarregos em tempo integral. A igreja promete encerrar o evento com a realização do ritual da fogueira santa de Israel, onde os bilhetes com pedidos dos devotos arderão na pira do Leão de Judá. Promete ser mais animado que o desfile da Imperatriz Leopoldense sobre a China.

6- Apreciar as belezas naturais da nossa cidade. Eis um programa tremendamente interessante para os que detestam o tríduo. Levantar às cinco horas da manhã para fazer caminhadas ecológicas, trilhas e trekkings, com oportunidade de integração entre os colegas e a realização de um piquenique comunitário. Deve ser tremendamente divertido, sobretudo se chover.

7- Festas, raves, bailinhos, baladas ou o raio-que-o-parta. Em plena sexta-feira, véspera de carnaval, uma “baita festa” vai acontecer em boate na Cidade Baixa, programa ideal para os descolados de plantão, com direito a muito som indie, funk, soul. Tem outra festa, no mesmo bairro, cujo nome já diz tudo: I Hate Carnaval. É o programa mais indicado para rapazes frescos e jovens lésbicas intelectualizadas.

8- Camarotes vip no Complexo Cultural Porto Seco e das cervejarias na Marquês de Sapucaí; sempre repletos de subcelebridades, gente bem e personalidades (oi?) do meio político. É, sem a menor dúvida, o melhor programa para quem de fato detesta carnaval.

Depois dessas dicas que provam, repito, minha compreensão em relação aos não carnavalescos, abrirei a primeira gelada do dia, pedirei axé aos meus guias, licença ao povo da rua (que não sou besta), e declararei aberto o meu Carnaval.

Evoé!

domingo, outubro 02, 2011

O barulho do Seu Cláudio


Cláudio Custódio dos Santos é um dos nomes seminais do samba porto-alegrense. Dono de uma voz de timbre agradável caracterizado por uma maciez vocal, o popular Cláudio Barulho fez história cantando na noite e no carnaval da Capital.

Na noite, cantou em todos os bares famosos da cidade: Gente da Noite, Pandeiro de Prata, Casa de Samba Evolução, Carinhoso, etc. No carnaval, nos últimos 30 anos, deteve o microfone número 1 de várias agremiações: Restinga, Imperadores do Samba, Império da Zona Norte, Figueira, Praiana, Embaixadores do Ritmo, só para citar algumas. Antes disso, no início da década de 1970, o talentoso negãozinho e praça do Exército exercitava seus dotes artísticos e instrumentais na banda de música do antigo 18º Regimento de Infantaria Motorizada (na avenida Bento Gonçalves, onde hoje está o TecnoPuc).

E agora, finalmente, o músico lança seu primeiro CD, Cantar samba é..., cujo show de lançamento acontece na terça-feira, dia 4, no Teatro da Cia das Artes. Ainda não escutei o disco, mas com certeza, o repertório deve estar recheado de pagodes pegados e sambas dolentes, daqueles que só o Barulho sabe cantar. O show será gravado por uma equipe da TVE/Canal 7 e será exibido no programa Palcos da Vida a partir do dia 15 de outubro.

Ah, e para quem for ao show e adquirir o CD, fica a dica: o que o Cláudio faz, é música de qualidade. Não tem nada a ver com uns "barulhos" que se ouvem por aí.

sábado, fevereiro 14, 2009

Quem desfila é soldado...


Nessa época de pré-carnaval, meu ídolo Nei Lopes publicou em seu Lote, uma gostosa crônica sobre as origens da folia e algumas considerações do carnaval contemporâneo. Curti tanto que merece reprodução. O texto, bem-humorado, é, também, ácido e implacável.

Manda ver, mestre Nei.

"QUEM DESFILA É SOLDADO”, JÁ DIZIA O WALDINAR.

Um certo jornalismo de variedades, que às vezes nos engana, fantasiado de “cultural”, insiste em confundir samba com carnaval, espetáculo com folia, alhos com bugalhos. É assim que, para esse jornalismo, todo diretor de bateria é “mestre”, todo sambista é “bamba”, toda “musa” tem “samba no pé”, e qualquer bebum deprê, desde que vista uma fantasia no carnaval, mesmo que seja uma reles camiseta de bloco de boteco ilustrada pelo picasso da esquina, é um “folião”.

A mesma linha de “raciocínio”, que repete mais do que pesquisa, vai sempre buscar as origens do carnaval brasileiro nas saturnais romanas, que, dizem, celebravam a volta da primavera e o renascer da natureza; e daí passa pelos bailes de Veneza, Nápoles e Florença, chega ao Zé Pereira e a um certo “Congresso das Sumidades Carnavalescas” que ninguém sabe bem o que foi.

O que quase ninguém menciona é que, embora relacionado ao ca­len­dá­rio ca­tó­li­co, o car­na­val do Brasil e das Américas – o das ruas, livre e solto ( “abada”, camiseta e camarote é outro papo) – tem raízes em vá­rias cul­tu­ras afri­ca­nas. Em Gana, por exemplo, entre o povo Akan, é co­mum a rea­li­za­ção de um gran­de fes­ti­val ­anual, o od­wi­ra (na ilustração acima), se­gui­do de um lon­go pe­río­do de re­co­lhi­men­to e abs­ti­nên­cia, co­mo na qua­res­ma. Devido a es­sa si­mi­li­tu­de, as ce­le­bra­ções car­na­va­les­cas nas Américas com cer­te­za de­vem sua ale­gria e seu bri­lho, fun­da­men­tal­men­te, à mú­si­ca dos ­afro-des­cen­den­tes. Assim foi e é, no Brasil, nos ran­chos car­na­va­les­cos, nas es­co­las de sam­ba, nos maracatus, afo­xés, blo­cos-­afro etc.; no can­dom­be pla­ti­no; nas com­par­sas cu­ba­nas; e no mar­di­gras, nas Antilhas e em New Orleans.

Em toda a América colonial, isolados pe­la so­cie­da­de do­mi­nan­te, africanos e descendentes uniam-se pa­ra ce­le­brar o car­na­val à sua mo­da, com a mú­si­ca e a dan­ça de sua tra­di­ção, in­tro­du­zin­do, na fes­ta eu­ro­péia, ­além dos ins­tru­men­tos ca­rac­te­rís­ti­cos, ­suas cren­ças e seu mo­do de ser. Na Martinica, o cos­tu­me foi ado­ta­do por vol­ta de 1640 e as fes­ti­vi­da­des do kan­na­val, co­mo é de­no­mi­na­do o car­na­val mar­ti­ni­ca­no, ex­pres­sam-se em um es­ta­do de es­pí­ri­to pe­cu­liar, trans­mi­ti­do de ge­ra­ção pa­ra ge­ra­ção. Durante mui­to tem­po a fes­ta rea­li­za­da na ci­da­de de Saint-Pierre foi o pon­to cul­mi­nan­te da co­me­mo­ra­ção na ­ilha, e, ten­do sua fa­ma se es­ten­di­do pe­lo Caribe, ­atrai anual­men­te mi­lha­res de vi­si­tan­tes de to­do o mun­do. Depois da de­vas­ta­do­ra erup­ção vul­câ­ni­ca de 1808, a tra­di­ção car­na­va­les­ca re­vi­veu em Fort-de-France, a no­va ca­pi­tal da Martinica, on­de, nos ­dias de ho­je, os pre­pa­ra­ti­vos co­me­çam na epi­fa­nia, em mea­dos de ja­nei­ro, e se es­ten­dem até a quar­ta-fei­ra de cin­zas. Durante es­se pe­río­do e no car­na­val pro­pria­men­te di­to, a ca­da do­min­go, gru­pos fan­ta­sia­dos ­saem às ­ruas, em tra­jes va­ria­dos: ca­sa­cos ve­lhos, rou­pas fo­ra de mo­da, cha­péus ras­ga­dos, fan­ta­sias bri­lhan­tes e co­lo­ri­das de ar­le­quim, pier­rôs e dia­bos. As más­ca­ras tam­bém são im­por­tan­tes aces­só­rios da fes­ta: ­além das que ho­me­na­geiam ou cri­ti­cam per­so­na­li­da­des do mo­men­to, há aque­las re­la­cio­na­das à mor­te, re­ple­tas de sim­bo­lo­gias afri­ca­nas, cu­jo sig­ni­fi­ca­do Aimé Cesaire en­con­trou em ri­tuais da re­gião de Casamance, no Norte do Senegal (con­for­me Alain Eloise). No Haiti, de mo­do ge­ral, o car­na­val é ce­le­bra­do se­guin­do es­se mes­mo es­pí­ri­to e com tra­ços se­me­lhan­tes aos fes­te­jos que se rea­li­zam no Brasil, em Trinidad e na Louisiana, Estados Unidos. Em Porto Príncipe, o vi­si­tan­te en­con­tra des­fi­les, fes­tas e fan­ta­sias cria­ti­vas, co­mo os que se ­vêem nes­ses lu­ga­res. Da mesma forma em Cuba, onde o carnaval é celebrado, desde o século XVII, em julho; e onde a cidade de Santiago é tida por alguns como o berço do carnaval caribenho.

No Brasil, pelo me­nos des­de o iní­cio do sé­cu­lo XIX, a par­ti­ci­pa­ção do po­vo ne­gro nos fol­gue­dos car­na­va­les­cos sem­pre foi mar­ca­da, também, por uma ati­tu­de de re­sis­tên­cia, pas­si­va ou ati­va, à opres­são das clas­ses do­mi­nan­tes. Proibidos por lei de re­vi­dar aos ata­ques dos bran­cos, afri­ca­nos e criou­los pro­cu­ra­vam ou­tras ma­nei­ras de brin­car no en­tru­do. Tanto as­sim que Debret, en­tre 1816 e 1831, pe­río­do em que vi­veu no Brasil, fla­grou ce­nas in­te­res­san­tes de car­na­val, co­mo por exem­plo, um gru­po de ne­gros que, fan­ta­sia­dos de ve­lhos eu­ro­peus e ca­ri­ca­tu­ran­do-­lhes os ges­tos, zom­ba­va dos opres­so­res, crian­do, sem sa­ber, os cor­dões de ve­lhos, de imen­so su­ces­so no iní­cio do sé­cu­lo XX. Entre 1892 e 1900 sur­gi­ram no car­na­val baia­no, pe­la or­dem, a “Embaixada Africana*”, os “Pândegos d’Áfri­ca*”, a “Chega­da Africana” e os “Guerreiros d’Áfri­ca”, apre­sen­tan­do-se em prés­ti­tos cons­ti­tuí­dos úni­ca e ex­clu­si­va­men­te de ne­gros. Essa mo­da­li­da­de car­na­va­les­ca – “a exi­bi­ção de cos­tu­mes afri­ca­nos com ba­tu­ques” – se­ria proi­bi­da em 1905 na Ba­hia. Exatos ­dois ­anos de­pois, sur­ge no Rio de Janeiro o ran­cho car­na­va­les­co “Ameno Re­sedá*” que, pre­ten­den­do “­sair do afri­ca­nis­mo orien­ta­dor dos cor­dões” (con­for­me Jota Efegê), con­quis­ta, com ­seus en­re­dos ope­rís­ti­cos, im­por­tan­te es­pa­ço pa­ra os ne­gros no car­na­val ca­rio­ca, pre­pa­ran­do o ca­mi­nho pa­ra as es­co­las de sam­ba, que sur­gi­riam um pou­co ­mais tar­de. Estruturadas no fi­nal dos ­anos de 1920, de 1932, ano do pri­mei­ro des­fi­le real­men­te or­ga­ni­za­do, até os ­dias de ho­je, as es­co­las de sam­ba ca­rio­cas vi­ve­ram vá­rias fa­ses de um ins­ti­gan­te pro­ces­so dia­lé­ti­co. Nunca dei­xa­ram de ser, no en­tan­to, pe­lo me­nos em te­se, nú­cleos de re­sis­tên­cia ne­gra – a ri­ca sim­bo­lo­gia das ­alas de baia­nas e das ve­lhas-guar­das cons­ti­tui exem­plo em­ble­má­ti­co.

Enquanto as es­co­las ca­rio­cas iam se trans­for­man­do, na Bahia ­eram fun­da­das agre­mia­ções co­mo o afo­xé “Filhos de Gandhi”, em 1948, “pa­ra di­vul­ga­ção do cul­to na­gô, co­mo for­ma de afir­ma­ção ét­ni­ca”, se­gun­do ­seus es­ta­tu­tos; o blo­co-­afro Ilê ai­yê, em 1974, “por um gru­po de jo­vens cons­cien­tes da ne­ces­si­da­de de man­ter vi­va a lu­ta dos ­seus an­ces­trais pe­la com­ple­ta in­te­gra­ção so­cial da po­pu­la­ção ne­gra no Brasil”, tam­bém con­for­me ­seus ob­je­ti­vos es­ta­tu­tá­rios; e o afo­xé “Badauê”, em 1978, tor­nan­do, se­gun­do o es­cri­tor Antonio Risério, “ir­re­ver­sí­vel o pro­ces­so de rea­fri­ca­ni­za­ção do car­na­val da Bahia”.

Mas nessa reafricanização, o capital acabou entrando de cabeça. Aí, vieram, entre outras novidades, os blocos-de-trio e os abadás (“abadá” é, no sentido originário, aquela espécie de blusão masculino, sem gola, usada no oeste africano e nos candomblés). Da mesma forma que, nas escolas de samba cariocas, veio aquele padrão de fantasia que, qualquer que seja o enredo, mistura punhos egípcios com capacetes astecas e capas de super-heróis, etc.

Em meio a tudo isso, veio a síndrome do “desfile”, do espetáculo, em prejuízo da “saída” espontânea, contaminando até o bloquinho mais mixuruca ali da esquina. É, então, que nos vem a cabeça a célebre frase do saudoso jornalista e boêmio carioca Waldinar Ranulpho (1922-1985), o qual, na sua ácida verve de cronista carnavalesco, talvez o último deles, um dia fulminou:

– Sambista “sai”, meu sinhô! Quem “desfila” é soldado! Grande Waldinar!...

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Caindo na folia!

A partir de hoje, começo uma incrível maratona. E em pleno carnaval! Nas noites de hoje, amanhã e domingo, à noite (sempre por volta das 21h30min), estarei comentando os desfiles das escolas de samba no Porto Seco pela Rádio Guaíba AM 720 Khz. A cobertura está prevista para terminar às 7:30 da manhã.

No Domingo de Carnaval e na Terça-feira de Cinzas, estarei de plantão no Jornal do Comércio, encarnando o repórter de Política.

No domingo, a coisa será power. Depois de ter passado a noite em claro assistindo os desfiles do primeiro dia do Grupo Especial, devo chegar em casa por volta das 8:00 da manhã. Aí eu "cochilarei" um pouco e, às 4 da tarde, estarei firme e forte (impávido como Muhammad Ali) lá na redação do JC, ajudando o editor João Gamboa a baixar as quatro páginas dedicadas à Política para a edição conjunta de segunda e terça. Ainda bem que já fizemos um bom estoque de reportagens especiais para ajudar a abastecer as páginas, porque o setor político ficará às moscas durante o tríduo momesco. Terminada a missão no prédio da Avenida João Pessoa, me mando pro sambódromo para a cobertura da rádio até às 6 da manhã.

Pelo menos, na segunda, estarei de folga no JC e não terá desfile aqui em Poa. Na terça, só terei compromisso no jornal. Enquanto isso, a maioria das pessoas normais estará numa praia, no interior ou dormindo muito. Fazer o quê, né?