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quarta-feira, novembro 03, 2010

Novas mandingas do Nei


O escritor, compositor, carioca, suburbano e amigo Nei Lopes - e um dos ídolos do Brisa - retorna ao Alegre Porto, para novamente uma sessão de autógrafos na Feira do Livro. O Velho do Lote (como o próprio se autointitula) estará aqui no próximo dia 05 de novembro, sexta-feira, às 14h30, na Praça de Autógrafos, na Praça da Alfândega, onde lançará seu primeiro romance, Mandingas da mulata velha na Cidade Nova, pela Editora Língua Nova.

Com 23 livros no currículo, Nei também joga nas posições de lexicógrafo, etimologista, enciclopedista e compositor. Mandingas... é uma ficção inspirada na vida de Tia Ciata, personagem fundamental da cultura afro-brasileira.

Compositor consagrado da MPB, teve sucessos gravados por ícones da música brasileira do quilate de Roberto Ribeiro, Zeca Pagodinho, Alcione, Grupo Fundo de Quintal, Clara Nunes, Gilberto Gil, Beth Carvalho, João Nogueira, Jair Rodrigues, Zezé Mota, Dudu Nobre, entre muitos outros. É autor de clássicos como Judia de mim, Gostoso veneno, Goiabada Cascão, Coisa da antiga, Raio de luar, Gotas de veneno, Senhora Liberdade, só para citar alguns.

Estive com Nei quando da sua vinda à feira em 2008. Naquela oportunidade, e com zero de divulgação, o carioca lançou Kofi e o menino do fogo, livro no qual se aventurou pela literatura infanto-juvenil. Durante quase 1 hora conversamos com muito bom humor sobre os mais diversos assuntos, mas confesso que fiquei um pouco envergonhado de tão pouquíssima gente ter sido avisada sobre a presença do cara por aqui. Enquanto isso, um sem-número de queridinhos da mídia (alguns sem um pingo de talento literário, é verdade) ocupavam listas dos mais vendidos e tinham filas formadas com analfabetos funcionais à procura de uma rubrica. Acredito que um intelectual do porte de Nei Lopes merece a atenção da nossa comunidade afrodescendente porto-alegrense e gaúcha.

Aos que puderem multiplicar a divulgação, comparecer e prestigiar o evento, fica o meu agradecimento. E o do Nei também

sábado, fevereiro 14, 2009

Quem desfila é soldado...


Nessa época de pré-carnaval, meu ídolo Nei Lopes publicou em seu Lote, uma gostosa crônica sobre as origens da folia e algumas considerações do carnaval contemporâneo. Curti tanto que merece reprodução. O texto, bem-humorado, é, também, ácido e implacável.

Manda ver, mestre Nei.

"QUEM DESFILA É SOLDADO”, JÁ DIZIA O WALDINAR.

Um certo jornalismo de variedades, que às vezes nos engana, fantasiado de “cultural”, insiste em confundir samba com carnaval, espetáculo com folia, alhos com bugalhos. É assim que, para esse jornalismo, todo diretor de bateria é “mestre”, todo sambista é “bamba”, toda “musa” tem “samba no pé”, e qualquer bebum deprê, desde que vista uma fantasia no carnaval, mesmo que seja uma reles camiseta de bloco de boteco ilustrada pelo picasso da esquina, é um “folião”.

A mesma linha de “raciocínio”, que repete mais do que pesquisa, vai sempre buscar as origens do carnaval brasileiro nas saturnais romanas, que, dizem, celebravam a volta da primavera e o renascer da natureza; e daí passa pelos bailes de Veneza, Nápoles e Florença, chega ao Zé Pereira e a um certo “Congresso das Sumidades Carnavalescas” que ninguém sabe bem o que foi.

O que quase ninguém menciona é que, embora relacionado ao ca­len­dá­rio ca­tó­li­co, o car­na­val do Brasil e das Américas – o das ruas, livre e solto ( “abada”, camiseta e camarote é outro papo) – tem raízes em vá­rias cul­tu­ras afri­ca­nas. Em Gana, por exemplo, entre o povo Akan, é co­mum a rea­li­za­ção de um gran­de fes­ti­val ­anual, o od­wi­ra (na ilustração acima), se­gui­do de um lon­go pe­río­do de re­co­lhi­men­to e abs­ti­nên­cia, co­mo na qua­res­ma. Devido a es­sa si­mi­li­tu­de, as ce­le­bra­ções car­na­va­les­cas nas Américas com cer­te­za de­vem sua ale­gria e seu bri­lho, fun­da­men­tal­men­te, à mú­si­ca dos ­afro-des­cen­den­tes. Assim foi e é, no Brasil, nos ran­chos car­na­va­les­cos, nas es­co­las de sam­ba, nos maracatus, afo­xés, blo­cos-­afro etc.; no can­dom­be pla­ti­no; nas com­par­sas cu­ba­nas; e no mar­di­gras, nas Antilhas e em New Orleans.

Em toda a América colonial, isolados pe­la so­cie­da­de do­mi­nan­te, africanos e descendentes uniam-se pa­ra ce­le­brar o car­na­val à sua mo­da, com a mú­si­ca e a dan­ça de sua tra­di­ção, in­tro­du­zin­do, na fes­ta eu­ro­péia, ­além dos ins­tru­men­tos ca­rac­te­rís­ti­cos, ­suas cren­ças e seu mo­do de ser. Na Martinica, o cos­tu­me foi ado­ta­do por vol­ta de 1640 e as fes­ti­vi­da­des do kan­na­val, co­mo é de­no­mi­na­do o car­na­val mar­ti­ni­ca­no, ex­pres­sam-se em um es­ta­do de es­pí­ri­to pe­cu­liar, trans­mi­ti­do de ge­ra­ção pa­ra ge­ra­ção. Durante mui­to tem­po a fes­ta rea­li­za­da na ci­da­de de Saint-Pierre foi o pon­to cul­mi­nan­te da co­me­mo­ra­ção na ­ilha, e, ten­do sua fa­ma se es­ten­di­do pe­lo Caribe, ­atrai anual­men­te mi­lha­res de vi­si­tan­tes de to­do o mun­do. Depois da de­vas­ta­do­ra erup­ção vul­câ­ni­ca de 1808, a tra­di­ção car­na­va­les­ca re­vi­veu em Fort-de-France, a no­va ca­pi­tal da Martinica, on­de, nos ­dias de ho­je, os pre­pa­ra­ti­vos co­me­çam na epi­fa­nia, em mea­dos de ja­nei­ro, e se es­ten­dem até a quar­ta-fei­ra de cin­zas. Durante es­se pe­río­do e no car­na­val pro­pria­men­te di­to, a ca­da do­min­go, gru­pos fan­ta­sia­dos ­saem às ­ruas, em tra­jes va­ria­dos: ca­sa­cos ve­lhos, rou­pas fo­ra de mo­da, cha­péus ras­ga­dos, fan­ta­sias bri­lhan­tes e co­lo­ri­das de ar­le­quim, pier­rôs e dia­bos. As más­ca­ras tam­bém são im­por­tan­tes aces­só­rios da fes­ta: ­além das que ho­me­na­geiam ou cri­ti­cam per­so­na­li­da­des do mo­men­to, há aque­las re­la­cio­na­das à mor­te, re­ple­tas de sim­bo­lo­gias afri­ca­nas, cu­jo sig­ni­fi­ca­do Aimé Cesaire en­con­trou em ri­tuais da re­gião de Casamance, no Norte do Senegal (con­for­me Alain Eloise). No Haiti, de mo­do ge­ral, o car­na­val é ce­le­bra­do se­guin­do es­se mes­mo es­pí­ri­to e com tra­ços se­me­lhan­tes aos fes­te­jos que se rea­li­zam no Brasil, em Trinidad e na Louisiana, Estados Unidos. Em Porto Príncipe, o vi­si­tan­te en­con­tra des­fi­les, fes­tas e fan­ta­sias cria­ti­vas, co­mo os que se ­vêem nes­ses lu­ga­res. Da mesma forma em Cuba, onde o carnaval é celebrado, desde o século XVII, em julho; e onde a cidade de Santiago é tida por alguns como o berço do carnaval caribenho.

No Brasil, pelo me­nos des­de o iní­cio do sé­cu­lo XIX, a par­ti­ci­pa­ção do po­vo ne­gro nos fol­gue­dos car­na­va­les­cos sem­pre foi mar­ca­da, também, por uma ati­tu­de de re­sis­tên­cia, pas­si­va ou ati­va, à opres­são das clas­ses do­mi­nan­tes. Proibidos por lei de re­vi­dar aos ata­ques dos bran­cos, afri­ca­nos e criou­los pro­cu­ra­vam ou­tras ma­nei­ras de brin­car no en­tru­do. Tanto as­sim que Debret, en­tre 1816 e 1831, pe­río­do em que vi­veu no Brasil, fla­grou ce­nas in­te­res­san­tes de car­na­val, co­mo por exem­plo, um gru­po de ne­gros que, fan­ta­sia­dos de ve­lhos eu­ro­peus e ca­ri­ca­tu­ran­do-­lhes os ges­tos, zom­ba­va dos opres­so­res, crian­do, sem sa­ber, os cor­dões de ve­lhos, de imen­so su­ces­so no iní­cio do sé­cu­lo XX. Entre 1892 e 1900 sur­gi­ram no car­na­val baia­no, pe­la or­dem, a “Embaixada Africana*”, os “Pândegos d’Áfri­ca*”, a “Chega­da Africana” e os “Guerreiros d’Áfri­ca”, apre­sen­tan­do-se em prés­ti­tos cons­ti­tuí­dos úni­ca e ex­clu­si­va­men­te de ne­gros. Essa mo­da­li­da­de car­na­va­les­ca – “a exi­bi­ção de cos­tu­mes afri­ca­nos com ba­tu­ques” – se­ria proi­bi­da em 1905 na Ba­hia. Exatos ­dois ­anos de­pois, sur­ge no Rio de Janeiro o ran­cho car­na­va­les­co “Ameno Re­sedá*” que, pre­ten­den­do “­sair do afri­ca­nis­mo orien­ta­dor dos cor­dões” (con­for­me Jota Efegê), con­quis­ta, com ­seus en­re­dos ope­rís­ti­cos, im­por­tan­te es­pa­ço pa­ra os ne­gros no car­na­val ca­rio­ca, pre­pa­ran­do o ca­mi­nho pa­ra as es­co­las de sam­ba, que sur­gi­riam um pou­co ­mais tar­de. Estruturadas no fi­nal dos ­anos de 1920, de 1932, ano do pri­mei­ro des­fi­le real­men­te or­ga­ni­za­do, até os ­dias de ho­je, as es­co­las de sam­ba ca­rio­cas vi­ve­ram vá­rias fa­ses de um ins­ti­gan­te pro­ces­so dia­lé­ti­co. Nunca dei­xa­ram de ser, no en­tan­to, pe­lo me­nos em te­se, nú­cleos de re­sis­tên­cia ne­gra – a ri­ca sim­bo­lo­gia das ­alas de baia­nas e das ve­lhas-guar­das cons­ti­tui exem­plo em­ble­má­ti­co.

Enquanto as es­co­las ca­rio­cas iam se trans­for­man­do, na Bahia ­eram fun­da­das agre­mia­ções co­mo o afo­xé “Filhos de Gandhi”, em 1948, “pa­ra di­vul­ga­ção do cul­to na­gô, co­mo for­ma de afir­ma­ção ét­ni­ca”, se­gun­do ­seus es­ta­tu­tos; o blo­co-­afro Ilê ai­yê, em 1974, “por um gru­po de jo­vens cons­cien­tes da ne­ces­si­da­de de man­ter vi­va a lu­ta dos ­seus an­ces­trais pe­la com­ple­ta in­te­gra­ção so­cial da po­pu­la­ção ne­gra no Brasil”, tam­bém con­for­me ­seus ob­je­ti­vos es­ta­tu­tá­rios; e o afo­xé “Badauê”, em 1978, tor­nan­do, se­gun­do o es­cri­tor Antonio Risério, “ir­re­ver­sí­vel o pro­ces­so de rea­fri­ca­ni­za­ção do car­na­val da Bahia”.

Mas nessa reafricanização, o capital acabou entrando de cabeça. Aí, vieram, entre outras novidades, os blocos-de-trio e os abadás (“abadá” é, no sentido originário, aquela espécie de blusão masculino, sem gola, usada no oeste africano e nos candomblés). Da mesma forma que, nas escolas de samba cariocas, veio aquele padrão de fantasia que, qualquer que seja o enredo, mistura punhos egípcios com capacetes astecas e capas de super-heróis, etc.

Em meio a tudo isso, veio a síndrome do “desfile”, do espetáculo, em prejuízo da “saída” espontânea, contaminando até o bloquinho mais mixuruca ali da esquina. É, então, que nos vem a cabeça a célebre frase do saudoso jornalista e boêmio carioca Waldinar Ranulpho (1922-1985), o qual, na sua ácida verve de cronista carnavalesco, talvez o último deles, um dia fulminou:

– Sambista “sai”, meu sinhô! Quem “desfila” é soldado! Grande Waldinar!...

quarta-feira, novembro 05, 2008

Meu encontro com Nei Lopes


São poucas as pessoas que eu cometeria a tietagem de pedir autógrafo ou tirar uma foto junto. E só faria isso de uma maneira autêntica, se eu realmente fosse fã dessa pessoa. Já aconteceu com Bezerra da Silva e com Dominguinhos do Estácio. Infelizmente, não tive a ventura de tietar Jamelão. Só sei que nunca posaria ao lado de uma celebridade efêmera ou qualquer outro tipo de pagação de pau. E eis que um dos meus (poucos) ídolos vivos estava em Porto Alegre: o escritor, compositor e sambista Nei Lopes.

O artista carioca esteve em POA para participar da programação da Feira do Livro e autografar sua nova obra: Kofi e o menino do fogo (Editora Pallas), direcionada ao público infantil. Sem nenhuma divulgação, nem resenha em jornal, nem cobertura da "grande" imprensa, Nei ficou à disposição do público na tarde desta terça-feira (04.11), junto aos armazéns centrais do Cais do Porto. Eu, que não sou bobo nem nada, me fui até lá, munido de livros e capas de CDs para ganhar a assinatura de Nei e ainda sapecar uma foto com o autor de "Tempo de Dondom", "Goiabada Cascão", "Judia de mim", "Gostoso Veneno", entre outras obras.

Grande figura, esse Nei. Ficamos cerca de 40 minutos batendo papo sobre carnaval, samba-enredo, escola de samba, livros, folclore afrobrasileiro, de tudo um pouco. O mestre recentemente lançou um DVD gravado ao vivo. Quem sabe Porto Alegre será brindada com um show deste sambista nato, de fina cepa.
Volte logo aos pagos, Nei!

terça-feira, janeiro 29, 2008

As escolas de samba vêm do tempo de Dom João Charuto

O post de hoje eu pedi emprestado ao grande escritor, compositor e sambista brasileiro Nei Lopes e está no blog dele, o Meu Lote, que inclusive consta na minha lista de favoritos. Ele recupera as origens do carnaval brasileiro, além da gênese na Roma Antiga, informando também o nascedouro da folia na África e nas Antilhas. E eu, singelamente, acrescento, ao final, as origens da folia alegre-portense. Aí vai...

Os historiadores do carnaval brasileiro costumam ver suas origens remotas na Roma antiga, como contou a Beija-Flor, há alguns anos. Mas o fato é que os festejos, embora atrelados ao calendário católico, têm também, sob alguns aspectos, raízes na África negra, encontrando similares em várias culturas africanas. Em Gana, por exemplo, entre os povos Akan (fantis e axantis) é comum a realização de um grande festival anual, o odwira, seguido de um longo período de recolhimento e abstinência, como na quaresma. Certamente devido a essa similitude, as celebrações carnavalescas nas Américas devem sua alegria e seu brilho, fundamentalmente, à música dos afro-descendentes. Assim foi e é nos ranchos carnavalescos, escolas de samba, afoxés, blocos-afro etc, no Brasil; no candombe platino; nas comparsas cubanas; no mardigras, nas Antilhas e em New Orleans.

Nas Antilhas, o carnaval foi introduzido pelos católicos franceses, que costumavam estendê-lo por um bom tempo antes de enfrentarem os rigores da quaresma, sendo que, na Martinica, o costume foi adotado por volta de 1640. Isolados pela sociedade dominante, os escravos uniram-se para celebrar o carnaval à sua moda, com a música e a dança de sua tradição, introduzindo, na festa européia, além de seus instrumentos, suas crenças e seu modo de ser. As festividades do carnaval martiniquenho, o kannaval, expressam-se em um peculiar estado de espírito, transmitido de geração a geração. A cidade de Saint Pierre foi, durante muito tempo, o ponto culminante da festa na ilha, tendo sua fama se estendido por todo o Caribe, atraindo a cada ano milhares de visitantes de todo o mundo.

Depois da devastadora erupção vulcânica de 1808, a tradição carnavalesca reviveu em Fort-de-France, a nova capital, onde, hoje, os preparativos têm início na epifania, em meados de janeiro, quando o povo começa a se animar, e se estendem até a quarta-feira de cinzas. Durante esse período e no carnaval propriamente dito, a cada domingo, grupos fantasiados saem às ruas, em trajes variados: casacos velhos, trajes fora de moda, chapéus rasgados, bem como fantasias brilhantes e coloridas de arlequim, pierrôs e diabos. As máscaras também têm lugar destacado na festa. E além das que homenageiam ou criticam personalidades do momento, como artistas, políticos etc, há as relacionadas à morte, cheias de simbologias africanas -- das quais Aimé Césaire encontrou o significado em rituais da região de Casamance, no norte do Senegal (cf. Alain Eloise). No Haiti, de um modo geral, o carnaval é celebrado dentro desse mesmo espírito e com traços semelhantes aos carnavais do Brasil, de Trinidad e da Louisiana. Em Port-au-Prince, o visitante vai encontrar os mesmos desfiles, festas e fantasias criativas que se vêem nesses lugares.

No Brasil, desde pelo menos o início do Século XIX, a participação do povo negro nos folguedos carnavalescos sempre foi marcada por uma atitude de resistência, passiva ou ativa, à opressão das classes dominantes. Proibidos por lei de, no entrudo, revidarem aos ataques dos brancos, africanos e crioulos procuravam outras maneiras de brincar. Tanto assim que Debret, entre 1816 e 1831, flagrava uma interessante cena de carnaval em que um grupo de negros, fantasiados de velhos europeus e caricaturando-lhes os gestos, fazia sua festa, zombando dos opressores e criando, sem o saber, os cordões de velhos, de tanto sucesso no início do século XX.

Entre 1892 e 1900 surgem no carnaval baiano, pela ordem, a “Embaixada Africana”, os “Pândegos D’África”, a “Chegada Africana” e os “Guerreiros D’África”, apresentando-se em forma de préstitos constituídos única e exclusivamente de negros. Essa modalidade carnavalesca (“a exibição de costumes africanos com batuques”) é proibida em 1905 na Bahia. Exatos dois anos depois, surge no Rio de Janeiro o rancho carnavalesco “Ameno Resedá” que, pretendendo “sair do africanismo orientador dos cordões” (cf. Jota Efegê) conquista, com seus enredos operísticos, um espaço importante para os negros no carnaval carioca, cimentando a estrada por onde, mais tarde, viriam as escolas de samba.

Mas a gênese do carnaval negro brasileiro, o dos cortejos que gerararam as escolas de samba, talvez esteja mesmo é em 1808, no Rio, quando das festas em homenagem à família real que aqui chegava. Vejamos esta descrição dos viajantes John e William Robertson, transcrita no precioso livro de, Mary C. Karasch “A vida dos escravos no Rio de Janeiro; 1808-1850” ( Companhia das Letras, 2000):

“Em frente avançavam os grupos das várias nações africanas, para o campo de Sant’Anna, o teatro de destino da festança e da algazarra. Ali estavam os nativos de Moçambique e Quilumana, de Cabinda, Luanda, Benguela e Angola [...]
“A densa população do campo de Sant’Anna estava subdividida em círculos amplos, formados cada um por trezentos a quatrocentos negros, homens e mulheres.
“Dentro desses círculos, os dançarinos moviam-se ao som da música que também estava ali estacionada; e não sei qual a mais admirável, se a energia dos dançarinos, ou a dos músicos. Podiam-se ver as bochechas de um atleta de Angola prontas a arrebentar pelo esforço de produzir um som hediondo de uma cabaça, enquanto outro executante dava golpes tão abundantes e pesados no tímpano que somente a natureza impenetrável do couro de um boi poderia resistir-lhes. Um mestre-de-cerimônias, vestido como um curandeiro, dirigia a dança; mas era para estimular, não para refrear, a alegria turbulenta que prevalecia com supremo domínio. Oito ou dez figurantes iam e vinham no meio do círculo, de forma a exibir a divina compleição humana em todas as variedades concebíveis de contorções e gesticulações. Logo, dois ou três que estavam no meio da multidão pareciam achar que a animação não era suficiente, e com um grito agudo ou uma canção, corriam para entro do círculo e entravam na dança. Os músicos tocavam uma música mais alta e mais destoante; os dançarinos, reforçados pelos auxiliares mencionados, ganhavam nova animação; os auxiliares pareciam envoltos em todo o furor de demônios; os gritos de aprovação e as palmas redobravam; cada observador participava do espírito sibilino que animava os dançarinos e os músicos; o firmamento ressoava com o entusiasmo selvagem das clãs negras [...]”

Que tal? Digam se não parece que foi aí que nasceram o diretor-de-harmonia, a bateria, as pastoras. Hein?


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E a partir daqui, eu falo um pouco da história do carnaval de Porto Alegre.

O carnaval de Porto Alegre teve origem no século XVIII com o entrudo, brincadeira trazida pelos açorianos, na qual as pessoas atiravam umas nas outras limões (uma bola de cera do tamanho de um limão, cheia de perfume), e havia casos em que se atiravam ovos e farinha nas "vítimas". No século XIX, o entrudo deu lugar às Sociedades Carnavalescas.

A Esmeralda (verde e branco) e os Venezianos (vermelho e branco) mudaram e dominaram o carnaval nessa época, em torno de larga rivalidade entre ambas. Houve um tempo de grandes bailes no Theatro São Pedro. Quem não freqüentava os salões partia para a Cidade Baixa, Menino Deus, Azenha ou bairro Santana, onde a diversão era garantida. As variadas fantasias só dependiam da imaginação dos foliões. Os homens adoravam se vestir de mulher, sendo ajudados pelas esposas, mães ou irmãs.

Blocos, ranchos, cordões de sociedade e tribos carnavalescas foram as primeiras grandes atrações de nossos desfiles, até que surgisse, por volta de 1960, as primeiras Escolas de Samba. Os primeiros desfiles oficiais foram realizados na Av. Borges de Medeiros, e anos depois, na Avenida João Pessoa (1969-1975), depois na Avenida Loureiro da Silva, a Perimetral (1976-1987)) e Avenida Augusto de Carvalho (1988-2003). A partir de 2004, os desfiles se transferiram para o sambódromo no Complexo Cultural Porto Seco. Uma obra destinada para ter a maior e mais moderna pista de desfiles do país, investimento do poder público municipal para o carnaval da Grande Porto Alegre.

Tantos carnavais...
O corso, desfile de carros alegóricos pelas ruas de Porto Alegre, marcava uma festa vivenciada pela camada mais abastada da população.
A muamba é uma atração porto-alegrense, exclusiva dos gaúchos. Esse evento era realizado bem antes do carnaval, pois era uma maneira de arrecadar dinheiro para as festas e fantasias. Ocorria em diversos pontos da cidade, geralmente o pavilhão da escola era carregado aberto e as pessoas jogavam moedas ali.

As tribos carnavalescas foram uma atração à parte nos desfiles locais e eram em torno de 15 grupos, hoje restam apenas duas: Os Comanches e Os Guaianazes.

As bandas eram comuns na época e alegravam muito o povo nas ruas. Nomes como: "Por Causa de Quê", "Filhos da Candinha", "Comigo Ninguém Pode", "Banda DK" foram desaparecendo, levando com elas uma animação que deixou muita saudade. Algumas viraram escolas de samba.